HISTÓRIA
A tradição de queimar as fitas remonta à década de 50 do século XIX. Há notícias desta época em que, Segundo Eduardo Proença-Mamede, "grupos de estudantes que, vendo-se passados nos exames do 4º. Ano, se juntavam por faculdade à Porta Férrea e faziam um cortejo até ao Largo da Feira e aí as fitas tinham um fim: eram queimadas numa pequena cova no chão onde ardia um pequeno fogo".

Mais tarde vieram as "festas do ponto" (latadas de fins do século XIX), nos Centenários que entre 1880 e 1898 homenageavam diversas figuras e factos, no Centenário da Sebenta e Enterro do Grau.

O acto de queimar as fitas é anterior à própria festa da Queima das Fitas. As "festas do ponto" serviam para assinalar o final do ano lectivo e a emancipação dos caloiros.

O primeiro acto conhecido das festas ligadas à Queima das Fitas, já com um programa estruturado, é de 1901. Nesse ano, em finais de Maio, os estudantes do IV ano jurídico organizaram um cortejo com cerca de 20 carros motorizados e a cavalo, enfeitados com flores e festões de murta. O cortejo levou cerca de hora e meia a percorrer o trajecto desde o Largo da Universidade até à Baixa. Os caloiros seguiam no cortejo amarrados por fitas vermelhas e com várias latas atadas com fios onde os doutores batiam com as bengalas.

As fitas vermelhas representavam a cor do curso jurídico. Alguns anos mais tarde os doutores liam a mensagem de emancipação dos caloiros, entregando-lhes os símbolos que representavam essa emancipação: palmatória, tesoura e moca.

As fitas, tiras de tecido que serviam para atar os livros, a que se chamava o grelo, eram queimadas já de noite. As cinzas eram colocadas numa lata que mais tarde passou a ser colocada à Porta Férrea. Segundo António José Soares, a 10 de Junho de 1903 houve duas queimas das fitas, uma dos quartanistas de direito e outra dos quartanistas de medicina, terminando com uma garraiada na Figueira da Foz, no dia seguinte. Alberto de Sousa Lamy sustenta que só a 26 de Maio de 1929 se realizou, na Figueira da Foz, a primeira garraiada integrada na queima das fitas.

Em 1903 é lançada a primeira brochura de caricaturas, com apenas 10 caricaturas.

Em 1905 surge a segunda brochura já com 136 caricaturas das cinco Faculdades.

A greve académica de 1907 impede a realização da queima das fitas, porque a academia estava dividida em duas facções.

A 27 de Maio de 1913 a polícia decide "controlar a queima" colocando nas ruas muitos dos seus elementos. Um académico faz questão de rapinar um boné ao chefe da brigada. Até 1918, há alguns interregnos, condicionados pelas condições políticas, económicas e sociais da época, como por exemplo a proclamação da República e a 1ª. Grande Guerra Mundial.

Em 1918 os estudantes de medicina e de direito unem-se para queimar o grelo.

Em 1919 o Cortejo dos quartanistas é participado por todas as Faculdades. A 26 de Maio haveria a "tourada dos caloiros e a 27 efectuava-se a queima do grelo e o cortejo. Ainda nessa tarde realizava-se a "festa das latas" e, pela primeira vez, o dia passa a ser feriado académico, cessando todas as praxes. Segundo Alberto de Sousa Lamy, os caloiros passavam a semi-putos, os semi-putos a putos, os putos a quartanistas, os quartanistas a quintanistas e os quintanistas a veteranos. Acontecia portanto a emancipação dos caloiros e a passagem ao posto imediato de todas as outras dignidades. Este foi, de facto, o ano em que as celebrações académicas começaram a adquirir a estrutura que conservam actualmente.

Em 1920 surge o primeiro programa oficial da Queima.

A 27 de Maio de 1925 é lançado aquele que muitos consideram ser o primeiro livro de caricaturas.

A partir de 1926 os grelos passam a queimar-se no "penico", mas há notícia de o mesmo ter sido feito em 1896. É também em 1926 que a Queima das fitas tem lugar oficial e cartaz desenhado por D. Diogo de Reriz.

Em 1935 surge o primeiro cartaz litografado.

Em 1938 surge um cartaz com várias cores. Ainda neste ano, o grande palco da queima que desde 1930 era no Parque da Cidade, voltou ao Jardim Botânico. A Queima não se realizou em 1921 e em 1962.

A 8 de Maio de 1969 os estudantes grelados, solidários com a greve académica decidem não realizar a Queima das Fitas que só viria a ser retomada 12 anos depois.

Em 1972 alguns quartanistas, em plena rebeldia ao luto académico ainda em vigor chegam a realizar alguns festejos e a editar cartaz e selo, não conseguindo fazer o Cortejo.

A Revolução de Abril não terminou com a greve académica. Posições radicais deram origem a confusões, ficando os estudantes privados da sua festa académica e tudo parecia indicar que não se voltaria a realizar. O I Seminário do Fado de Coimbra realizado em 1978, vem dar alguma força aos que queriam reatar o Cortejo, até que, em 1979 a direcção-geral da Associação Académica de Coimbra presidida por Maló de Abreu, consegue organizar pelos seus próprios meios a I Semana Académica de Coimbra que decorreu de 2 a 10 de Junho e constituiu um reforço para os que queriam voltar aos festejos da "Queima", apesar da persistência dos que queriam continuar o luto académico.

Em 1980 os radicais que se opunham ao regresso das festividades académicas, travados também por cisões de índole política, não conseguiram impedir festejos que em muito se assemelhavam à Queima das Fitas, muito embora não tivessem conseguido o apoio dos organismos autónomos da AAC. Mas a cidade adere à iniciativa e as lojas são decoradas com motivos alusivos à festa dos estudantes.

De 23 a 28 de Maio realiza-se novamente, em pleno, a Queima das Fitas com um programa completo e uma assistência ao Cortejo que o "Diário de Coimbra" estimou em mais de 200 mil pessoas, muito embora no dia 28 de Maio um grupo de rapazes procurasse bloquear o cortejo da Queima das Fitas ao fundo da Rua Alexandre Herculano.

O programa tradicional da Queima das Fitas comporta: o Baile de Gala das Faculdades, também chamado "Baile da Queima", introduzido em 1933 e realizado, apenas neste ano, no salão da Câmara Municipal de Coimbra, no "Ninho dos Pequenitos" de 1934 a 1936 e no Ginásio do Liceu José Falcão a partir de 1937; o Chá Dançante; o Cortejo dos Quartanistas; as Noites do Parque; a "Queima" do Grelo; o Sarau de Gala; a Serenata Monumental; realizada pela primeira vez em 1949 para abrir as festividades da Queima e a Venda da Pasta, surgida pela primeira vez em 1932, lançada pelo curso médico, conhecido por "curso dos cocos", a favor do Asilo da Criança Desvalida que agora se chama Casa da Infância Doutor Elísio de Moura. Faz também parte uma semana cultural e um programa desportivo que envolve as secções desportivas da A.A.C. e seus convidados nacionais e estrangeiros.

A Queima das Fitas constitui, para os Quartanistas Fitados, o ponto de passagem para o derradeiro trajecto da vivência estudantil coimbrã, para os caloiros a emancipação e para os Veteranos o fim da caminhada. Os outros sobem mais um grau hierárquico na PRAXE.